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quinta-feira, 22 de março de 2012

O fascínio da memória

Relações entre emoção e fatores cognitivos demonstram a complexidade dos sistemas neurobiológicos responsáveis por diferentes dimensões da memória
por Mauro Maldonato e Alberto Olivero**

A memória humana é uma faculdade maravilhosa e enganosa.
Embora muitos a considerem um arquivo imutável de experiências e recordações, o que ela guarda não está esculpido em pedra. De fato, as lembranças tendem a desbotar com o tempo, deformando-se e indo ao encontro, mesmo em condições normais, de uma lenta decadência, de um esquecimento fisiológico. E não é raro que gerem em nós perturbadoras sensações de estranheza, fragmentação, não pertencimento e até mesmo recombinações ilusórias de imagens e informações que ocupam nossa mente como um caleidoscópio. A memória e o esquecimento, a imutabilidade e a reestruturação das lembranças são aspectos tanto conflitantes quanto complementares de nossa mente. Essa ambiguidade tem um valor evolutivo crucial. Se, de um lado, a memória desempenha uma função adaptativa fundamental para a espécie humana, de outro, sem a capacidade de esquecer não aprenderíamos nada de novo, não corrigiríamos nossos erros, não inovaríamos velhos esquemas. Assim, é plausível afirmar que, enquanto a memória tende a preservar a história individual e coletiva, o esquecimento tende a ofuscar, progressivamente, as recordações infantis, os eventos do passado, os empreendimentos coletivos, as antigas memórias. Não por acaso, os humanos erguem lápides e monumentos para se defenderem do esquecimento.
Essa ambiguidade não se deve apenas à sua natureza vasta e heterogênea, mas também a suas relações intricadas. A própria natureza polissêmica do termo memória – utilizado por biólogos, psicólogos, antropólogos e historiadores para se referirem a processos e situações muito diferentes entre si, ainda que unidos pelo elemento comum da “flecha do tempo” – dificulta o aparecimento de um significado compartilhado e de fronteiras conceituais bem definidas. A etimologia grega do termo – mneme e anamnesis – espelha uma clara distinção entre a memória como esfera essencialmente intacta e contínua, e a reminiscência ou anamnese como exercício de presentificação das lembranças que o esquecimento vela. EmMenon, Fedro e outros diálogos, Platão afirma que todo conhecimento verdadeiro, todo aprendizado autêntico, é, na verdade, anamnese, esforço para chamar de volta à mente o que havia sido esquecido.

Hoje, uma época de predomínio cultural do paradigma medico- biológico, a memória (mneme) é identificada como um mecanismo cerebral puro, um arquivo das informações do sistema nervoso central; por seu lado, a reminiscência (anamnesis) é igualada a alguma coisa mais complexa e sutil do que o simples registro dos eventos. A reminiscência, de fato, implica uma reflexão sobre o passado, uma evocação das lembranças prazerosas ou dolorosas, sepultadas ou censuradas, que formam a essência de nossa individualidade. Mas, como é evidente, a disponibilidade do arquivo não coincide necessariamente com sua consulta e, portanto, a mera existência de uma lembrança, boa ou deficitária que seja, não se identifica com o princípio de identidade e de unicidade que decorre da individualidade de nossas recordações, conforme considera Oliverio. Nos últimos anos, os neurocientistas descreveram meticulosamente as bases moleculares, os fenômenos sinápticos e as alterações dos circuitos nervosos da memória, tentando preencher – por métodos não invasivos e multiparamétricos das imagens cerebrais – as lacunas explicativas da pesquisa psicológica. O conhecimento detalhado dessas dimensões poderia parecer pouco relevante aos que veem a mente como um conjunto de vivências diferentes e de experiências privadas e indizíveis. Em diferentes situações ligadas a danos e alterações da função nervosa, no entanto, a interpretação neurobiológica é fundamental para a compreensão do que acontece em nossa mente, como são reestruturadas as lembranças, como se dá o esquecimento.
(...)




**Mauro Maldonato e Alberto Olivero Mauro Maldonato, colaborador de Scientific American Brasil, é filósofo e psiquiatra, professor de psicologia geral da Universidade de Basilicata, em Potenza e Matera. Alberto Olivero, biólogo e psicobiólogo, é professor da Universidade de Sapienza, em Roma.

A medicina em LEGO.

A geração que brincou de LEGO inspirou vários artistas a criar verdadeiras obras de arte com essas pecinhas coloridas. Já vimos cientistas e até o corpo humano de LEGO! Descobrimos rcentemente as obras de Eric Harsbarger, "artista de LEGO". Além de diversos temas, Eric explora bem o tema de medicina: já fez o DNA, o coração e agora um carrinho de anestesia! Todas são muito interessantes, mas essa do carro de anestesia é realmente impressionante: em tamanho real, usou 30.000 peças de LEGO e, de fato, parece um carro de anestesia de verdade!




quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Diabetes Care: menos de meio litro de água ao dia pode aumentar a glicemia

Pessoas que bebem menos de 500 ml de água por dia podem ser mais propensas a desenvolver níveis glicêmicos mais altos, de acordo com estudo publicado pelo periódico Diabetes Care. O estudo demonstra uma correlação entre a ingestão de água e os níveis de glicose no sangue, mas não prova a relação de causa e efeito entre eles. Suspeita-se de que o hormônio vasopressina possa estar envolvido.

Pesquisadores franceses descobriram que pessoas que tomam menos de 500 ml de água ao dia podem ter seus níveis glicêmicos aumentados. Estes achados foram publicados pelo periódico Diabetes Care.

A ingestão de água altera os níveis de vasopressina, um hormônio antidiurético, no sangue. Pesquisadores franceses realizaram um estudo com 3.615 homens e mulheres de meia idade, com glicemia de jejum basal normal. O estudo teve nove anos de seguimento.

Durante o acompanhamento, houve 565 novos casos de hiperglicemia e 202 casos novos de diabetes mellitus. A ingestão de água foi inversamente e independentemente associada ao risco de desenvolver hiperglicemia.

Fonte: Diabetes Care, de 12 de outubro de 2011
NEWS.MED.BR, 2011. Diabetes Care: menos de meio litro de água ao dia pode aumentar a glicemia. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2011.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Gravidez: hipertensão arterial subjacente é pior que o uso de anti-hipertensivos no primeiro trimestre da gestação para riscos de malformações

Mulheres grávidas e seus filhos nascidos vivos (465.754 pares de mães-bebês), da organização de cuidados com a saúde Kaiser Permanente, no norte da Califórnia, no período de 1995 a 2008, participaram do estudo de coorte retrospectivo que avaliou o uso de inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) durante o primeiro trimestre da gravidez e o risco de malformações nos bebês.

A prevalência de uso de inibidores da ECA no primeiro trimestre da gravdez foi de 0,9/1000, e o uso de outros medicamentos anti-hipertensivos foi de 2,4/1000. Após ajustes para idade materna, etnia, paridade e obesidade, o uso de inibidores da ECA durante o primeiro trimestre da gestação parece estar associado com risco aumentado de defeitos cardíacos congênitos nos recém-nascidos em comparação com os controles normais (aqueles sem hipertensão ou uso de qualquer anti-hipertensivo durante a gravidez). Uma associação semelhante foi observada para o uso de outros anti-hipertensivos e casos de defeitos cardíacos congênitos. No entanto, em comparação com controles com hipertensão (aqueles com diagnóstico de hipertensão arterial, mas sem o uso de anti-hipertensivos), sem utilizar inibidores da ECA ou de outros anti-hipertensivos, no primeiro trimestre, foi encontrado aumento do risco de defeitos congênitos do coração nos recém-nascidos.

Concluiu-se que o uso materno de inibidores da ECA no primeiro trimestre da gestação tem um perfil de risco semelhante ao uso de outros anti-hipertensivos sobre as malformações nos recém-nascidos vivos. O risco aparente de malformações associadas ao uso de inibidores da ECA (e outros anti-hipertensivos) no primeiro trimestre da gestação é maior devido à hipertensão subjacente, ao invés de ser maior com o uso de medicamentos neste período da gravidez.

Fonte: British medical Journal - BMJ

domingo, 21 de agosto de 2011

Pandemia de diabetes: um em cada quatro americanos já tem diabetes mellitus

Na 71ª reunião da American Diabetes Association (ADA) em San Diego, EUA, em junho de 2011, foi anunciado que um em cada quatro adultos americanos está com diabetes mellitus.

Em 25 de junho deste ano, o periódico The Lancet publicou um artigo de Goodarz Danaei e colaboradores dizendo que o diabetes mellitus alcançou proporções alarmantes no mundo. Nos 199 países analisados, que incluíram 2,7 milhões de pessoas, o número estimado de diabéticos dobrou nas últimas três décadas – de 153 milhões em 1980 para 347 milhões em 2008. Embora 70% do aumento observado seja atribuído ao crescimento e ao envelhecimento populacionais, o número também reflete uma mudança negativa no estilo de vida com má alimentação e sedentarismo, e obesidade como resultado.

A obesidade é um importante fator de risco para o diabetes mellitus tipo 2. Uma vez que a obesidade aumenta no mundo todo, o diabetes mellitus tende a piorar.

O mais alarmante é que a obesidade infantil também está aumentando. Nos EUA, 10% dos bebês e das crianças estão com excesso de peso e mais de 20% das crianças com idades entre 2 e 5 anos estão com sobrepeso ou obesas. Estes dados são do relatório US Institute of Medicine's Early Childhood Obesity Prevention Policies, que foi publicado em junho de 2011.

O estudo clínico Early ACTivity In Diabetes (Early ACTID) mostra que orientações sobre dieta, com ou sem aumento de atividades físicas, pode prevenir um declínio do controle glicêmico em pacientes adultos com diabetes mellitus tipo 2. Os benefícios desta intervenção simples, baseada no ajuste do estilo de vida, chama a atenção pela importância na educação dos pacientes. Estudos tentam mostrar se esta mesma orientação feita aos pais de crianças diabéticas ou para crianças com diabetes tipo 2 terão os mesmos efeitos positivos na prevenção da doença.

Benefícios são vistos quando os indivíduos são mais bem informados sobre fatores de risco e sintomas precoces da doença, o que enfatiza a prevenção primária, o rastreamento e a intervenção precoce quando necessária.

Em 2030, a expectativa para o número de diabéticos no mundo é de 472 milhões. Cerca de 80% deles estarão em países de baixa e média rendas. Nestas regiões, medicamentos hipoglicemiantes e insulina são frequentemente inacessíveis ou são muito caros e os sistemas de saúde locais não têm pessoal e capacidade financeira para enfrentar o problema. Esta situação precisa mudar.

Fonte: The Lancet, Volume 378, de 9 de julho de 2011
NEWS.MED.BR, 2011. Pandemia de diabetes: um em cada quatro americanos já tem diabetes mellitus. Disponível em: . Acesso em: 21 ago. 2011.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PNAS: cérebro humano encolhe com o envelhecimento, diferente do que ocorre com os chimpanzés

PNAS: cérebro humano encolhe com o envelhecimento, diferente do que ocorre com os chimpanzés

Várias mudanças biológicas caracterizam o envelhecimento do cérebro em seres humanos. Embora algumas dessas alterações associadas à idade neural também sejam encontradas em outras espécies, o declínio volumétrico de estruturas cerebrais específicas, como o do hipocampo e do lobo frontal, só foi observado em humanos.

No estudo, publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), cientistas liderados pelo antropólogo Chet Sherwood, da George Washington University, usaram a ressonância magnética para medir o volume total do cérebro, das substâncias branca e cinzenta do neocórtex e do lobo frontal e do hipocampo, em uma amostra transversal de 99 cérebros de chimpanzés abrangendo as idades de 10 a 51 anos. Os estudiosos compararam, pela primeira vez, esses dados com os volumes destas mesmas estruturas cerebrais medidos em 87 humanos adultos de 22 a 88 anos de idade. Em contraste com os seres humanos, que mostraram uma diminuição no volume de todas as estruturas do cérebro ao longo da vida, os chimpanzés não apresentaram significativas mudanças relacionadas à idade. O cérebro humano pode encolher em até 15% à medida que envelhece.

Os cientistas dizem que a magnitude do encolhimento das estruturas do cérebro no envelhecimento humano é evolutivamente nova e é resultado de uma longevidade prolongada. Ao contrário dos chimpanzés e de outros primatas, os seres humanos idosos são vítimas de uma série de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer. Os pesquisadores esperam que através da compreensão da biologia básica do cérebro, eles possam criar maneiras de tratar ou adiar os efeitos mentais nocivos da idade.

Fonte: PNAS – publicação online de 25 de julho de 2011

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Interface Cérebro-Máquina

O neurocientista Miguel Nicolelis lança novo livro. Além de falar sobre a interface cérebro-máquina, questão que estuda há mais de dez anos, cientista apresenta analogia entre o comportamento dos neurônios e a vida em sociedade.



Nicolelis escreve dedicatórias em seu novo livro: o cientista apresenta o cérebro como uma sinfonia, que funciona de modo democrático e coletivo. (foto: Thiago Camelo)

No final da palestra de lançamento do novo livro do neurocientista Miguel Nicolelis no Planetário do Rio de Janeiro, na terça-feira (28/06), um senhor da plateia atravessa o mediador e – voz firme – lê um papel com uma pergunta previamente escrita:
"Você poderia dizer se existe uma consciência extracorpórea do eu, alguma coisa que explica a autoconsciência humana? Porque, se formos pensar, para provar a nossa existência teríamos que estar olhando para nós mesmos, pois o observado só existe com o olhar do observador."
Nicolelis, sem pausa para reflexão, responde com humor: "Meu Deus, o Rio de Janeiro é complicado".

Explica-se: antes da pergunta derradeira, outros questionamentos filosóficos já haviam sido feitos ao cientista, que tinha acabado de apresentar em palestra de quase duas horas as ideias do seu recém-lançado livro Muito além do nosso eu – obra que explica como, após 12 anos de pesquisa, a ambição teórica de entender a interface cérebro-máquina tornou-se experimento prático com data mais ou menos programada para ser posto à prova com humanos.

Sobre Nicolelis, muitos já sabem: tem 50 anos, é cogitado a todo momento ao Nobel de Medicina e, portanto, tido como um dos cientistas mais importantes do mundo. Sua pesquisa centra-se na tentativa de mapear as tempestades neurais que ocorrem no cérebro e geram uma sinfonia de informação capaz de, se bem registrada e codificada, mover objetos com a 'força do pensamento'. Daí vem o termo 'interface cérebro-máquina', alegoria para o que acontece quando uma espécie de chip é implantado no cérebro de um primata e, por meio de impulsos elétricos neurais, uma prótese mecânica se movimenta.

O livro

Por mais interessante que possa ser o conteúdo científico de Muito além do nosso eu (e, de fato, é), o que soa novo na obra não são as amplamente debatidas experiências de Nicolelis e o resumo que ele faz dos 12 anos de trabalho, e sim o paralelo que o cientista estabelece entre aquilo que pesquisa e 'as coisas do mundo'.

No livro, Nicolelis reafirma categoricamente a visão distribucionista, que diz que o cérebro funciona por meio de estímulos coletivos de uma vasta população de neurônios espalhada em diferentes regiões cerebrais. Desdiz, assim, a visão localizacionista, que acredita que as funções cerebrais são realizadas de modo especializado e por neurônios segregados, individualizados.

Não é novidade. Esse é ponto inicial da pesquisa do neurocientista. A abertura social e filosófica que advém dessa questão é a novidade: Nicolelis agora compara esse comportamento 'coletivo' do sistema neural com a competência humana de viver em grupo, rede e sociedade – o nós como extensão do eu.

Na palestra, ele afirma: "o cérebro não reconheceria apenas a prótese mecânica como extensão do eu, mas tudo ao nosso redor, as pessoas e os objetos, como partes de uma coisa só."

Em entrevista ao jornal O Estado de S Paulo, Miguel Nicolelis sugere uma hipótese ainda não provada cientificamente de que "os modelos colaborativos funcionam tão bem porque a mente os reconhece como naturais".
Na mesma entrevista, o neurocientista afirma que o cérebro é "uma grande democracia" e que, por isso, "as redes sociais são um sucesso".
Brainet: a internet em que todos estariam conectados por implantes de chips no cérebro e pensamento

Essas ideias novas – do "cérebro coletivo", do cérebro como "modelo colaborativo", do cérebro como "rede social" – são tão presentes no livro quanto a proposta, não tão nova assim, da interface cérebro-máquina.
A proposição abre portas para invenções aventadas mais recentemente como a brainet, a internet em que todos estariam conectados por implantes de chips no cérebro e pensamento, sem a necessidade da mediação da tela de um computador.
A proposição abre também portas para questionamentos filosóficos e existenciais mais concretos.

Thiago Camelo
Ciência Hoje On-line

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